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VIH e a obesidade: da evidência à prática clínica

VIH e a obesidade: da evidência à prática clínica

A sessão “HIV and obesity”, que decorreu no dia 5 de outubro, contou com a preleção do Dr. Andrew Carr (University of New South Wales, Austrália), que fez uma revisão de alguns dados da literatura sobre a relação entre obesidade e o tratamento antirretrovírico. Após assistir a esta sessão, a Dr.ª Maria João Gonçalves, assistente hospitalar de Infecciologia no Centro Hospitalar e Universitário do Porto (Hospital de Santo António), teceu algumas considerações sobre esta temática.

O Dr. Andrew Carr (University of New South Wales, Austrália), que foi preletor na sessão “HIV and obesity”, começou por indicar que a obesidade é definida por um índice de massa corporal >30 Kg/m2. Os dados de 2016 sugerem que 13% da população mundial adulta, ou seja, o equivalente a 650 milhões de pessoas em idade adulta, é obesa, havendo um maior predomínio de casos no grupo de mulheres (15%) por comparação ao grupo de homens (11%).

Convidada a comentar esta sessão, a Dr.ª Maria João Gonçalves, assistente hospitalar de Infecciologia no Centro Hospitalar e Universitário do Porto (Hospital de Santo António), indicou que “vários estudos parecem constatar que os doentes infetados pelo VIH sofrem um aumento de peso no primeiro ano de terapêutica antirretrovírica”, sendo este efeito potencialmente atribuível a algumas classes de fármacos.

“O estudo OPERA mostrou que o aumento de peso existia quando se alterava a terapêutica baseada em TDF para TAF. Trata-se de um aumento significativo (2,5 Kg nos primeiros nove meses), quando comparado com os cinco anos retrospetivos, e com os nove meses a seguir, independentemente do terceiro fármaco (inibidor da integrase, inibidor da protease ou inibidor não-nucleósido da transcriptase reversa).”

Uma revisão sistemática, que incluiu oito ensaios com doentes naïve, demonstrou que “bictegravir, dolutegravir e rilpivirina estavam associados a um maior aumento de peso versus efavirenz. “O TAF também estava associado a maior aumento de peso em relação a abacavir ou TDF”, completou a Dr.ª Maria João Gonçalves. Já o estudo SPRING-1 demonstrou que “o aumento de peso está dependente da administração de maiores doses de dolutegravir (10, 25 e 50 mg)”.

No estudo NEAT-0001, que comparou esquemas que continham raltegravir com darunavir versus TDF/FTC, mostrou que “o esquema com raltegravir estava associado a um aumento do peso (+ 2 Kg)”. Em função destes dados, conclui-se que “não há uma distribuição normal da alteração de peso entre todos os estudos, e pensa-se que esta diferença estará relacionada com a população seleccionada”, até porque “no caso do GEMINI 1 & 2 o aumento de peso é diferente do que foi verificado no ADVANCE”. “Provavelmente, justificação para estas diferenças reside nas características da população que foi seleccionada”, explicou a Dr.ª Maria João Gonçalves.

Relativamente à profilaxia pré-exposição (PrEP), “o estudo HTPN77 comparou cabotegravir com placebo, não sendo documentado um aumento de peso com este injetável de longa duração de ação usado”. À luz destes resultados, poderá presumir-se que “não existe um efeito de classe com os inibidores da integrase”. Porém, “os estudos sugerem que o aumento de peso poderá ser induzido pelos inibidores da integrase e TAF, sendo este efeito inibido pelo TDF e, eventualmente, efavirenz”. O aumento de peso “parece ser mais significativo nos dois primeiros anos após o início do tratamento, não sendo, contudo, um efeito tão marcado em estratégias de switch ou PrEP”.

segunda-feira, 19 outubro 2020 15:29
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